• Aurélio Maduro

Individualismo e Cidadania


Para quem vive em Brasília desde os anos 70, sabe que as pistas entre as quadras residenciais/comerciais são faixas de trânsito continuas*. Para se fazer a reversão, é preciso ir até a famosa “tesourinha “ou “balão”. Recentemente, por pressa, pela busca por uma vaga ou mesmo por falta de educação vial, os motoristas têm cruzado as faixas sem a menor cerimônia. O que é uma infração em qualquer cidade do país chama atenção na capital federal por suas ruas planejadas e ordenamento moderno. Seria a cidade nova de hábitos velhos?

Utilizando por base esse exemplo poderíamos dizer que o mundo caminha para um novo contrato social e que estaria a sociedade em um momento de transição e de questionamentos de comportamentos sociais, políticos e econômicos. Do conceito retirado do site Politize; cidadania é uma ideia dinâmica que se renova constantemente diante das transformações sociais, dos contextos históricos e principalmente diante das mudanças de paradigmas ideológicos. A cidadania conhecida na antiguidade clássica não é a mesma cidadania pela qual lutamos hoje e a que aspiramos concretizar nas gerações futuras.

Os filósofos iluministas (ano de 1700), sobretudo John Locke, Voltaire e Jean-Jacques Rousseau, formularam as bases para a percepção moderna da relação entre Estado e indivíduos, ao conceber o ser humano como um indivíduo dotado de razão e de direitos intrínsecos à natureza (“direitos naturais”), como o direito à vida, à liberdade e à propriedade. Além disso, se considerarmos também que as bases do contrato social nascem nessa época, partindo de pressupostos como a natureza humana e a tendência de organizar as relações sociais com base nesta, podemos enxergar o início de um dilema entre emprego da razão e da autonomia de ação e comportamento social aceitável e formador de senso de coletividade.

Há séculos, o conceito de cidadania vem sendo moldado pelo respeito mútuo às individualidades do cidadão e ao senso de pertencimento coletivo, e cada um deve estar atento a essa linha tênue para enxergar os limites e impactos que decisões/hábitos coletivos podem gerar desrespeito ao outro e as leis. A cidadania deve estar cada vez mais atrelada ao respeito mútuo, e isso envolve abarcar minorias e suas nuances. Mais do que isso, faz-se essencial entender os fatores que podem provocar mudança na forma como a cidadania é vista na sociedade, mas sem se esquecer de que a cidadania instiga o nosso senso de coletividade dentro de um contrato social; ela é responsável por tornar a linha tênue entre individualidade e coletividade algo que seja saudável, passível de discussão e mutável, mas que preze pela expressão de uma coletividade que acredita na própria cidadania.

Afinal, estaríamos vivendo em um contexto cujo contrato social é uma junção sutil de Locke e Rousseau, mas que ainda ter seus limites melhor definidos pela sociedade? Cada vez mais tem-se proclamado um protagonismo maior do indivíduo como responsável por mudanças, mas um indivíduo que seja mais empático e entenda as diferenças de cada coletividade. Enxergamos aqui a dualidade entre uma autonomia e uma priorização individual, dialogando com uma natureza humana boa, a princípio, e capaz de promover um bem-estar geral a partir disso. As duas fornecem subsídio para pensarmos em cidadania enquanto uma constante conciliação de interesses individuais e coletivos, que precisa, dadas as mudanças políticas e socioeconômicas pelas quais temos passado, de um balanço entre responsabilidade individual e respeito para com o outro.

O fato é que se cada um se autoproclamar no direito de criar suas próprias regras e costumes, sem se sentir parte do todo e respeitando o limite do outro, rumaremos ao caos. Imagina se todos os motoristas decidissem fazer o cruzamento na própria faixa, utilizando como referência o exemplo acima. Além de infringir a lei, estariam contribuindo para um maior número de acidentes, atropelamentos e até de divergências de quem é o dono da vaga no estacionamento. Em um país que clama por limpeza na política e por condenação diária de corruptos nas rodas de conversa, não imagina que tal hábito, em um sentido amplo da palavra, também possa ser considerado corrupção.

Código Nacional de Trânsito: FAIXA AMARELA CONTÍNUA – Quando traçada ao longo da pista de rolamento indica que o veículo não pode passar a outra metade da pista.

#AurélioMadurodeAbreu

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