• Creomar Lima Carvalho de Souza

As Reformas que teremos


“Se conhece a árvore pelos frutos”, tal expressão consagrada pelo tempo traz em si uma lição acerca da relação entre causa e efeito que cabe para a vida cotidiana. De forma bastante resumida, o significado que se considera mais exato acerca do axioma apresentado é que você tem uma opinião do caráter de alguém a medida que observa os seus atos. Fazendo, portanto, um exercício de liberdade criativa esta reflexão parte do princípio dado acima para compreender um fenômeno bastante importante que marca o atual momento político nacional – a ideia de reforma e a eventual discussão acerca de várias delas no Congresso Nacional.

É importante iniciar a reflexão acerca do próprio significado que o termo possa entregar para uma melhor compreensão acerca do que se fala toda vez que há a necessidade de fazer uma reforma. Fundamentalmente, reformar pode ser compreendido como ato de aprimoramento com finalidade de oferecer algum tipo de melhoria ou modernização para um determinado objeto – visto como foco de ação – que venha a sofrer o ato de ser reformado.

No caso do Estado brasileiro, não se faz necessário ser um laureado pela academia de Ciências de Estocolmo para identificar a necessidade de um amplo processo de reformulação em alguns aspectos fundamentais da vida cotidiana nacional. Porém, como um resultado causal de tal opinião, surge quase que de imediato uma enorme sensação de pânico quando se pensa em quem são os responsáveis por alguns dos processos de mudança nas regras do jogo em elementos importantes da vida cotidiana de todos os entes que estão direta ou indiretamente vinculados naquilo que se convencionou chamar de Brasil.

Cotidianamente, o cidadão médio brasileiro tem a oportunidade de ser bombardeado por um número indefinido de informações – não conhecimento – acerca dos mais diferentes tipos, formas, modelos e sugestões de reforma. Cada uma delas, seja a política, da previdência, trabalhista ou ensino médio, traz em si como premissa fundamental o jargão: “o atual sistema é ineficiente e não atende as necessidades do povo brasileiro”. Sem querer entrar no mérito da eficácia dos objetos a serem objeto de reforma, aqui a preocupação maior é compreender qual a capacidade real da atual classe política de oferecer a credibilidade necessária para levar adiante qualquer tipo de ação que possa reverter as eventuais ineficiências que ora se apresentam.

E aqui reside um elemento crucial que faz retorno a primeira frase do texto, o conhecimento da árvore – vista como establishment político – pelos frutos produzidos, entendidos como suas decisões. Na construção de uma análise causal desta relação – atuação do sistema político e o impacto de suas decisões sobre a vida cotidiana – é clara a consideração de que em termos efetivos, os representantes políticos fazem um excelente trabalho na tarefa de defender interesses bastante importantes – os próprios. A base para este tipo de afirmação deriva-se dos balões de ensaio postos pelo establishment em alguns aspectos de reforma que surgem vez por outra, tendo como exemplos mais característicos os regimes diferenciados de aposentadoria ou a tentativa de alterar as regras eleitorais para beneficiar os atuais possuidores de mandato.

De fato, longe de acreditar que exista um modelo de representação institucional ideal, este texto tenta colocar em perspectiva o enorme risco que a atual classe política assume ao colocar-se de forma apática diante de clamores que mesmo difusos são cada vez mais ruidosos. A violência urbana, a falência dos serviços públicos e a própria descrença cada vez mais forte do cidadão comum em relação aos processos eleitorais são um alerta bastante concreto das dificuldades que se apresentarão ao país no próximo ciclo eleitoral. Neste sentido, o alto índice de eleitorais potenciais que não participou do pleito extemporâneo realizado recentemente no Amazonas deveria ser visto com muito cuidado, não só pelos políticos daquela região, mas, por qualquer outro indivíduo ou grupamento político interessado em concorrer por votos em futuro próximo.

E a partir de um retrato tão melancólico da realidade, qual seria a saída dos representantes? A resposta é bastante simples, uma reforma. A representação política como um todo – independentemente de seu recorte ideológico – deve passar por um processo de reforma de suas mentalidades e compreender que os velhos modos de se fazer política significarão em futuro próximo algo muito maior que a perda de mandato, o risco é o de ocorrência de uma falência dos múltiplos órgãos que compõe o corpo do regime democrático.

Em outras palavras, os frutos produzidos pela árvore do sistema político estão envenenando os responsáveis por adubar a árvore da representação, o eleitor. E a cada cidadão que para de depositar crença no solo que constrói e serve de base para o prédio da democracia, maiores serão as dificuldades dos representantes de produzirem frutos melhores. O ciclo de envenenamento que hora é produzido pela representação e retroalimentado via descrença da população fará em algum momento ambas as partes perdedoras em um processo bastante doloroso a todos os envolvidos – e isso inclui quem escreve e quem lê este texto.

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