• Daniel S Balaban

Afinal, Qual Sociedade Queremos?


Somos, todos que estamos vivenciando o momento atual, pivilegiados, pois vivemos um momento único de passagem, de definições, de decisões. Pode parecer-nos, à primeira vista, uma incoerência definir como privilégio viver no mundo atual, pleno de desigualdades e em que pessoas ainda marcham pela intolerância racial, sexual, em prol de absurdas “supremacias”. Mas é exatamente no momento em que todas as sujeiras são expostas que nos deparamos com uma excelente oportunidade de pensarmos qual o modelo de sociedade que queremos.

A ganância, a exploração, o ódio, a corrupção, o vale-tudo econômico são frutos do ambiente e vice-versa. A sociedade em que vivemos, em que o nível de consumo define seu caráter, em que o que possuímos é mais importante do que o que somos, em que 1% possuem 99% da riqueza, em que nossas crianças são instadas a uma competição estúpida, sendo divididos entre “vencedores” e “fracassados”, está fadada ao fracasso. Aliás, já fracassou há muito tempo. Mas, o que fazer? Qual a solução? Há esperança?

O filósofo americano John Rawls (1921-2002) tentou definir uma sociedade justa. Em 1971, Rawls publicou uma importante obra, “A Teoria da Justiça”. Segundo ele há dois pressupostos: 1) igualdade de oportunidade aberta a todos em condições de plena equidade e, 2) os benefícios nela auferidos devem ser repassados preferencialmente aos membros menos privilegiados da sociedade, os “worst off”, satisfazendo as expectativas deles, porque justiça social é, antes de tudo, amparar os desvalidos.

Para se conseguir isso é preciso, todavia, que uma dupla operação ocorra. Os “better off” (mais favorecidos), os talentosos, os mais bem dotados (por nascimento, herança ou dom), devem aceitar com benevolência em ver diminuir uma pequena parcela de sua participação material (em bens, salários, lucros e status social), minimizadas em favor do próximo, dos desassistidos. Esses, por sua vez, podem assim ampliar seus horizontes e suas esperanças em dias melhores, maximizando suas expectativas.

Rawls pressupõe que os mais abastados sejam altruistas o suficiente para que abdiquem de uma pequena parte de seus privilégios e vantagens materiais legítimas em favor dos socialmente menos favorecidos.

Mais de quarenta anos depois do lançamento da obra-prima de Rawls, dois acadêmicos americanos (Dan Ariely e Mike Norton), baseados em sua teoria, realizaram um estudo. Com base no “véu de ignorância de Rawls”, pesquisaram como deveria ser a divisão da riqueza para que uma pessoa se sentisse segura caso fosse colocada ao acaso na sociedade. 94% dos entrevistados descreveram uma divisão social que, no mundo, corresponde à dos países nórdico-escandinavos.

Nesses países, os avanços são frutos de políticas sociais e investimentos públicos no bem-estar coletivo. As políticas que reconhecem o retorno social de investimentos públicos em saúde, educação e igualdade de gênero, dentre outros. Hoje a Noruega lidera o Índice de Desenvolvimento Humano e os demais países da região estão entre os melhores. No índice de prosperidade, que mede os níveis de riqueza e bem-estar, a Dinamarca está em 2º, a Finlândia em 3º e a Suécia em 6º. A Suécia está em 1º no Índice de Democracia, a Dinamarca é o 2º país mais pacífico do mundo. Tais países possuem as menores taxas de encarceramento do mundo. Tem baixa desigualdade e muita justiça social. Possuem sistemas completamente diferentes daquele a que estamos habituados. Políticos, juízes e desembargadores têm uma vida muito próxima à do cidadão comum, sem quaisquer mordomias. Estão em primeiro lugar nos rankings de qualidade de vida, de democracia, de competitividade, e muito outros.

Com seus peculiares sistemas que reúnem virtudes tanto do livre mercado quanto do bem-estar social, a região criou um sistema que, não sendo perfeito, tem muitas virtudes. Suas sociedades têm uma boa qualidade de vida, com alto grau de coesão social e uma distribuição de renda relativamente uniforme. As empresas são obrigadas, em média, a reservar 40% das vagas em seus conselhos para mulheres. 75% das mulheres trabalham fora e para o governo isso representa maior atividade na economia e um número maior de pessoas pagando impostos. Os governos avaliam que esse incentivo para as mulheres e leis para garantir a igualdade de gênero são positivas para a economia. Grandes corporações e milionários pagam uma justa cota de impostos, e aí repousa a base de uma sociedade em que a educação e saúde públicas são excelentes, assim como o que impera é o interesse público.

Um ponto a ser destacado é que, nesses países há um alto nível de confiança nas principais instituições políticas e sociais. Aliás, um grande indutor ao sucesso está na confiança. Confiança em relação ao Estado e em relação uns aos outros, que exige em contrapartida um nível alto de responsabilidade. Se se perde essa confiança, não se pode funcionar como sociedade. Todas as crises surgem quando essa confiança se quebra. A confiança também explica por que é que os nórdico-escandinavos aceitam a pesada carga fiscal que têm. É que veem os impostos como um investimento a longo prazo numa sociedade sustentável e confiam que os dirigentes vão utilizar de forma adequada o dinheiro desses impostos, com invstimentos maciços em educação, ciência e tecnologia.

O que nos torna diferentes das demais espécies de animais é nossa capacidade de pensar e raciocinar. Estamos no Século XXI, tendo aprendido muito com os erros do passado, a ponto de não ousar repeti-los. Esse é o momento de reflexão sobre os caminhos que a humanidade decidirá tomar. É possível um mundo onde caibam todos.

#DANIELBALABAN #Política

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